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Os realizadores de 21 Jump Street afirmaram há pouco tempo que fazer desta adaptação da famosa série dos anos 80 uma comédia fora arriscadíssimo. Sem dúvida. Mas a escolha também não podia ter sido mais acertada.

Jenko (Channing Tatum) e Schmidt (Jonah Hill) já há muito ultrapassaram o liceu, em que o primeiro era o popular e o segundo era o cromo. Porém, anos mais tarde, encontram-se como polícias e, por força das circunstâncias, e tornam-se parceiros improváveis. Mas só quando são destacados para a unidade “21 Jump Street” é que são verdadeiramente testados: aí, terão de passar por estudantes do liceu e capturar o fornecedor de uma nova droga sintética que anda a circular pelos alunos de uma escola. Contudo, cedo descobrem que a escola mudou radicalmente de há sete anos para cá – ao contrário de todos os problemas que enfrentavam quando eram adolescentes e que pensavam há muito terem deixado para trás das costas.

Duas partes muito importantes num filme são o início e o fim. Por mais que se tente negar, se essas duas porções forem capazes de nos surpreender pela positiva, tudo o resto se torna mais agradável. E, de facto, 21 Jump Street começa com um bang! e acaba com outro ainda maior; com um começo e um término assim, é impossível ficarmos indiferentes. Grande introdução ao som de “The Real Slim Shady” (de Eminem) e grande conclusão com… não vou dizer, como é óbvio – fica para os fãs verem.

Sendo a adaptação da mítica série dos anos 80 do mesmo nome, não havia muito por onde fugir: Phil Lord e Chris Miller mantiveram-se na linha básica esperada, mas deram um toque próprio ao filme, tornando-o uma comédia e fugindo ao simples drama policial. Utilizaram novas personagens – acertadíssimo, dando até espaço a que algumas das antigas reaparecessem – e chamaram Jonah Hill (experiente comediante) para o argumento. Resultado? Loucura total. E ainda bem que assim é, pois não sei se teria aguentado ver um filme igual aos do costume.

Mas para essa peculiaridade, também contribui quem veste as personagens principais. Tenho de dar, por fim, o braço a torcer: Channing Tatum é um bom actor; prova-o com um papel aparentemente durão, mas no qual descobrimos um fundo sentimental – com isto, o artista americano prova que não tem a típica cara de pau que eu lhe associava, sendo capaz de exibir algo mais do que um rosto bonito que não consegue fugir à mesma expressão de sempre. Ah, e os críticos já começam a deliciar-se com o papel de Tatum no novíssimo Magic Mike, em que o actor revive a sua carreira como stripper. Finalmente começa a libertar-se das testosteronas G.I. Joe e A Águia da Nona Legião, assim como dos melodramas Nicholas Sparkianos, tais como Dear John.

Hill é Hill e prova mais uma vez a razão de ser um dos melhores actores cómicos do panorama cinematográfico actual – o comic relief que proporcionou em Money Ball dá conta disso mesmo, tendo-lhe granjeado uma nomeação ao Óscar de Melhor Actor Secundário. Aqui, consegue uma química fantástica com o seu co-protagonista, dando-nos o prazer de o ver num registo que lhe assenta mesmo muito bem – e em que vira todos os estereótipos de pernas para o ar.

Não obstante, a verdadeira “beleza” – se é que me é permitido falar assim de uma obra deste género – que reside neste filme é a forma como, sem deixar de dar primazia à comédia e à acção (os seus principais elementos, sempre muito bem executados), explora os problemas dos adolescentes, desencadeando um confronto de gerações e forçando os seus protagonistas a regressarem à sua adolescência e a enfrentarem os seus próprios problemas, como indivíduos, parceiros e amigos.

Apesar de me opor veementemente a grandes momentos protagonizados por personagens altamente secundárias ou que acabaram de chegar, este filme fez-me abrir uma excepção. Quando é um grande actor que o faz, tudo isso é esquecido e o momento é plenamente apreciado. No seguimento disso, nota para o facto como a própria série original acaba por ser aqui concluída em inteiro – e como essa mesma conclusão serve também como clímax e catalisador do final do filme. Uma aposta inteligente e um modo eficiente de trazer de volta os actores dos bons velhos tempos. E é sempre um prazer enorme ver Johnny Deep emprestar um pouco da sua loucura ao grande ecrã.

Contudo, não se pense que 21 Jump Street são só rosas: certas cenas são excessivamente loucas ou demoradas, enquanto que determinados temas enveredam pelo caminho errado, como poderão verificar quando virem o filme. A inversão das hierarquias nem sempre é natural e, embora seja determinante para o desenrolar da história, por vezes deixa de ser eficaz.

Além disso, certas ramificações da trama podiam ter sido melhor exploradas por comparação a outras, como os geeks (ou, por exemplo, [SPOILER] o romance de Jenko com a polícia cujo nome nem sequer chegamos a conhecer). O lado de Schmidt, embora se compreenda que ele é o principal dos protagonistas, começa, a certa altura, a cansar um pouco, sendo que teria sido saudável os realizadores focarem-se um pouco mais em Jenko, que perde tempo de antena para certas sequências desnecessárias – até porque, pelo menos para mim, a história deste é tão ou mais interessante que a do colega, pelo que teria sido melhor para o filme centrar-se tanto num como no outro, em doses iguais. Culpa, porventura, de um certo “egocentrismo” do também argumentista Jonah Hill.

Concluindo, esta é uma homenagem carinhosa e nostálgica à famosa série dos anos 80, que aproveita para nos fazer rir com uma caricatura inteligente dos filmes adolescentes da época. Embora por vezes exagere na loucura e se alongue em certos temas, guia-nos com esperteza pela trama, providenciando os twists adequados e fazendo-se um filme próprio e que se demarca da série em que se baseou. Um filme a não perder, uma agradável surpresa que se destaca dos restantes títulos do género. Ah, e vem aí uma sequela!

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21 Jump Street: Agentes Secundários, 10.0 out of 10 based on 1 rating



About the Author

Inês Sampaio
Estudante de Tecnologias da Comunicação Audiovisual na ESMAE. Reside actualmente no Porto, Portugal. Amante de cinema, escrita, leitura e futebol. Juntar as suas duas maiores paixões é para si um privilégio, propiciado pela oportunidade única de contribuir para o Mundo do Cinema.